20 de setembro de 2008

Estou lendo:



É interessante. O prórpio título já diz quase tudo.

A parte que achei mais interessante foi quando o autor recomenda "não se vender barato". Até conta várias historinhas a respeito. Uma delas é a de um gerente de vendas que chega a uma indústria de tintas pensando em pedir de 700 a 1.000 dólares a mais do que ganhava no emprego atual; mas depois de analisar a situação; viu que deveria pedir logo 3.500 dólares a mais. E, surpreendimentemente, foi atendido e hoje é um homem indispensável na industria.

Nota-se que isso ocorreu nos Estados Unidos.

Fico eu a pensar cá com meus botões: e no Brasil? Nessa nossa cultura "luso-escravagista", onde o sujeito nos paga um salário mínimo e só falta exigir que beijemos seus pés? Seria possível?

Também concordo que uma pessoa não deva vender-se barato. Porém, nesse nosso querido Brasil, a maioria das pessoas tem poucas - ou nenhuma - opõçes. Pelo menos, não como empregado. Temos que pegar o que aparece, e quando aparece. Contas não ligam para princípios morais: elas precisam ser pagas. Mesmo que isso nos custe a própria auto estima.

Porém, tenho encontrado alguns exemplos práticos.

Por exemplo:

Aqui em Santos tem um garoto chamado Danilo, que deve ter uns 18,20 anos no máximo. Ele é cego e pede esmolas em ônibus. Tá na cara que tem alguém o explorando: ele anda com uma placa cheia de dizeres do tipo "não posso ver o sol por-se entre as núvens ao entardecer, não posso ver o desabrochar das flores na primavera" ou algo que o valha. É não é um cartaz escrito a mão numa cartolina. É uma placa de madeira caprichosamente confeccionada por algum profissional de comunicação visual. É um sujeito muito conhecido por aqui.

Pois bem; uma vez fui pegar o ônibus para a Associação onde dava aulas e lá estava o tal Danilo no ponto. Assim que cheguei, percebendo minha presença, pediu-me que lhe pagasse uma água com gás. Ignorei e fui para o outro lado. Para cada trauseunte que passava, o tal Danilo pedia uma água com gás, não sendo atendido por ninguém, o rapaz queixava-se da má vontade das pessoas. Aquela altura, já encontrava-me indignado: porque o garoto simplesmente não entra em um bar e pede um copo de água? Ninguém lhe negaria, ofereceriam ao menos um copo de água filtrada. Mas o danado queria porque queria com gás!! Até que finalmente apareceu uma alma caridosa disposta a atender seu pedido. E o tal Danilo ainda enfatizou:

- Uma água com gás e um canudo, faz favor!

Não bastava ser água, tinha que ser com gás. Não bastava ser água com gás, tinha que ter um canudo. Minha indignação aumentava; ainda mais porque o moço subiu no mesmo ônibus que eu. Para quem não sabe, isso é proibido; pedir esmolas e vender produtos em meios de trasnporte coletivo. Porém, os motoristas parecem fazer vista grossa, talvéz, por também levarem algum no esquema.

E uma vez dentro do coletivo, o Sr. Danilo começou seu showzinho habitual. Tal qual um animador de TV, deu boa tarde aos Srs. Passegeiros e Sras. Passageiras, reclamou do desânimo destes, pediu entusiasmo, relatou seus problemas de visão, pediu "uma pequena contribuição", reclamou que estavam lhe dando pouco. Uma determinada hora, chegou próximo ao local onde eu estava e pediu licença, para que pudesse chegar aos assentos do fundo do veículo. Por pouco não lhe de uma bronca! Onde já se viu isso? Água com gás, canudinho, esmola, entusiasmo, animação, licença...

O que mais ele ia querer? Beijinho na boca? "Boa idéia; mas só das bonitinha, dos canhão eu dispenso", seria sua provável resposta.

Muito a contragosto dei-lhe a devida licença. Minha vontade era a de gritar ao motorista, perguntando ao condutor do coletivo se ele ignorava o fato daquele showzinho todo ser proibido e se ele estaria levando algum do esquema. Porém, covardemente, permanecí calado, tornando-me também conivente com aquela pouca vergonha; engulindo a seco minha indignação.

Antes de descer do ônibus, o Sr. Danilo resmungou pelo baixo faturamento da viagem e de como as pessoas tinham má vontade; ainda assim, ainda tal qual um animador de TV agradeceu aos que tinham colaborado e ainda pediu uma salva de palmas. Metade do ônibus atendeu. A esta altura, eu estava segurando-me para não cometer uma covardia: voar no pescoço de um deficiente visual e estrangulá-lo. Porém, contive-me; ponderei que tal ato acabaria numa delegacia de polícia, o que fatalmente atrapalharia a aula que tinha que dar naquela tarde.

Depois, mais calmo; cheguei a conclusão de que o Sr. Danilo (ou os espertalhões que a ele exploram) não estavam errados. Talvéz nenhum deles tanha lido "A Mágica de Pensar Grande"; mas com certeza chegaram a conclusão de que não deviam vender-se barato. Se a esmola era pouca não adiantava reclamar ao Santo disconfiado. Pelo menos outros benefícios deveriam ser pedidos: água com gás, canudinho, entusiasmo, aplausos. E quem sabe, algum dia, um "selinho" de alguma moça bonita. Vai que, algum dia, um funcionário de alguma emissora de TV pegue o ônibus, impressione-se com a performance do Sr. Danilo e resolva dar-lhe uma oportunidade. Ou alguém ligue uma câmera durante o "show" e coloque as imagens na internet; fazendo de Danilo a mais nova "celebridade instantânea do cyberespaço". Enfím, são inúmeras as possibilidades.
E realmente, torço para que algo deste tipo aconteça. Depois de ficar com bronca do tal Danilo; ponderei de que se trata de uma pessoa talentosa, que não deixa-se vencer por uma deficiência visual (se é que realmente a possui) e oferece ao público o que tem de melhor: simpatia, animação, entusiasmo. Ele simplesmente caiu em mãos erradas. Eu mesmo poderia tentar levar-lhe para uma emissora de TV ou filmá-lo e colocar as imagens no You Tube. Porém; sei que se fizer isso, ele ficará com a menor parte dos frutos que vierem a render. Os "gigolôs" ficariam com a parte do Leão e o tal do Danilo continuaria a viver só de esmola.

O Sr. Danilo e seus respectivos "gigolôs" deram-me uma grandiosa lição: temos mais é que sermos exigentes, não nos contentarmos apenas com esmolas, temos que pedir também a água com gás e o canudinho. E aplausos, animação, entusiasmo. Porque todos nós temos algo único a oferercer ao público. Nossos concorrentes podem ter algo "similar"; mas "idêntico", não.

É o que, em Microeconomia, chama-se de "Concorrência Monopolística".

2 Comments:

Denise said...

Infelizmente no Brasil não existe essa cultura de valorização dos profissionais. POr isso que tantas profissões estão desvalorizadas. É revoltante, mas enquanto as pessoas não se conscientizarem, nada vai mudar...
Boa semana!
bjs

Jack said...

Desconhecia esse Danilo... normalmemte faço tudo a pé aqui por perto de casa, dificilmente pego ônibus, mas acho que quem pega sempre o coletivo com ele já deve estar meio cheio não é?
Bjocks e bom final de semana